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Angola, 06/01/2010

Produção científica, actividade latente das Universidades Angolanas

A articulação das tarefas da universidade deve constituir-se num desafio constante para a estabilidade da própria universidade. Assentar a universidade na tríplice Ensino, Pesquisa e Extensão, pressupõe empenho das instituições afins e responsabilização dos docentes da sua razão na universidade.

É evidente que a produção científica deve assentar-se na pesquisa, pois, não há produtividade sem pesquisa. Desta feita, a aparição do presente texto emana por um lado, do contributo da necessidade constante à reflexão sobre a produção científica na universidade, pois, percebemos que a pesquisa, a produtividade dos professores deve insuflar o bom andamento das outras actividades a ela inerente. Por outro lado, sente-se que a universidade continua distante da sociedade (do cidadão).

Neste quadro, a figura principal é o professor e todas as vezes em que é dada a oportunidade aos nossos professores para verem a realidade tal qual de facto ela é e aceitem plenamente, estaremos ganhando pontos (Balzan, 1982 apud LÜDKE, 2008 et al), visto que, a cada dia-a-dia atravessa ao pensamento a necessidade de se repensar sobre as tarefas da universidade angolana, notadamente a parte que assegura a produção científica.

Ficamos com impressão de que a parte académica (didáctica) nas nossas universidades é mais dinâmica em detrimento da científica. E quando assim acontece a pesquisa torna-se diminuta e consequentemente nada ou quase nada se produz e não há o que ensinar a menos que se repasse produções alheias, copiadas e muitas vezes descontextualizadas. A pesquisa é uma actividade diária da universidade. Quando não se pesquisa, não se produz e o que se pode verificar é um vexame com o ensino, pois, “quem pesquisa tem o que ensinar, deve ensinar, porque ‘ensina’ a produzir, não a copiar. Quem não pesquisa, nada tem a ensinar, pois apenas ensina a copiar” Demo (2007).

Num estudo por nós realizado em Maio, 2009 junto de 100 professores a tempo integral na Universidade Agostinho Neto, revelou que a produção científica feita nas unidades orgânicas da UAN ainda é fraca e alguns professores consideram-na nula. Isto é, 87.5% dos professores considera débil e 26.5% dos pesquisados percebem que a produção científica é nula. Há no entanto, aqueles que dizem que a produção científica nas unidades orgânicas é positiva. Sendo que os resultados do estudo revelaram que 54% dos pesquisados consideram satisfatória e 20% consideram boa.

Pelo que se pode aperceber, há um deficit na universidade em matéria de produção científica, e isto é de vera preocupante. Ora, a partir do momento em que tomamos consciência de que a pesquisa é o «oxigénio» da universidade, esta deve ser geradora do conhecimento próprio para satisfação de problemas de vária índole. É um escândalo e descrédito no poder intelectual ficar a espera que os países mais avançados venham sempre “resolver” os nossos problemas, porque esses produzem e investem nos seus quadros científicos.

É importante perceber que, as apreciações acima estão desprovidas de qualquer tendência oposicionista à cooperação com instituições do ensino superior idóneas. Ademais, a não produção ou a débil produtividade dos professores, de acordo com o nosso estudo prende-se a um conjunto de factores intrínsecos e extrínsecos aos docentes e a universidade de forma geral. Por exemplo, a ausência de condições adequadas de trabalho, a falta de apoio aos poucos docentes que produzem e publicam, a desproporção e os atrasos salariais inexplicáveis.

Há um fenómeno que se regista com muita frequência e que agora virou moda, muitos docentes dedicam pouco tempo a universidade (aos locais fixo de trabalho), andam em biscates, pululando em outras actividades remuneratórias, provavelmente a busca de um equilíbrio para a vida e que muitas as vezes nada têm a ver com a docência ou investigação científica. E o que sucede? Muitos tornam-se arcaicos, porque não têm tempo para pesquisar muito menos para produzir. Os empregos ocupados por impelição da vida em Angola lhe ocupam o tempo útil de trabalho, e ninguém põem ordem nesse vagaroso suicídio do docente.

Seria bom se o docente se ocupasse apenas da universidade. E que fossem muito bem definidas as suas actividades. Qualquer um pode ter o número de ocupação que achar conveniente. Porém, a partir do momento em que não se é produtivo como devia está-se a assinar o atestado de incompetência.

Este quadro é de veras preocupante para uma universidade que se quer como actual e actuante pois, denuncia ausência da sua real acepção.

No quadro das teorias da motivação, vislumbra-se a teoria dos dois factores ou seja a teoria sobre a motivação no trabalho desenvolvida por Frederick Herzberg cujos factores de higiene estão relacionados com os factores de motivação, e por aquilo que os docentes universitários angolanos revelam como «handicap», acosta-se de igual modo a teoria de Abraham Maslow, isto é a busca da satisfação das necessidades de baixo nível pode retardar a satisfação das necessidades de alto nível.

E segundo Herzberg (1950 -1960) as condições de trabalho, as relações com os colegas, o estilo de gestão, a justiça e a equidade das práticas organizacionais, a situação salarial, o sentimento de segurança, a percepção de controlo podem condicionar o interesse do trabalhador em crescer, tal como a necessidade de se aperfeiçoar, de poder se actualizar.

Deste modo, nos parece que o docente pode sair do «poço» em que se encontra se lhe for dada uma remuneração completa que segundo Chiavenato (2008) comporta a remuneração básica (salário mensal ou por hora), os incentivos salariais (bónus, participação dos resultados de uma expedição científica, ou na produção de um trabalho de grande impacto) e de benefícios (como seguro de vida e de saúde).

Enquanto o docente continuar a ser biscateiro ou turbo-docente, dedicar poucas horinhas na instituição da qual é efectivo, a produção científica poderá continuar débil ou nula. Fazer ciência exige tranquilidade e o professor deve estar concentrado para produzir com a própria mão. Segundo Demo (2007) a elaboração própria implica a que o docente intervenha na realidade pondo em evidência a sua capacidade de pensar crítica e criativamente de forma activa.

Não obstante as intempéries envolventes ao docente universitário angolano, a vida universitária exige do docente o cumprimento do seu papel, de outra forma estar-se-á a assinar o atestado de universidade medíocre.

Entretanto, supomos que o docente está consciencializado de que a sua presença na universidade não está veiculada a carreira de funcionalismo público, mas, a de científico académico. Nesta linha, Da Costa (2008) assinala que o universitário que não investiga e não ‘produz ciência’ comete um erro profissional grave e auto esvazia o seu estatuto de promotor de valores científicos. E mais, fica cada vez mais adiado o sonho de se ter um país desenvolvido, pois, segundo Manuel (1997) poderemos ficar entregues aos desígnios das nações tecnologicamente mais evoluídas, como bonecos de argila húmida, nas mãos de um oleiro enquanto perdurar e aprofundar-se a dependência científica e tecnológica do nosso país.

Portanto, uma universidade pode tornar-se preponderante com a pesquisa, com a produção própria e com entrosamento das suas tarefas se de entre outros aspectos, fazer-se altos investimentos e valorizar os quadros científicos.

Francisco Caloia

Angola24horas.com





















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